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 Ultra-Romantismo

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Isabel
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MensagemAssunto: Ultra-Romantismo   Sab Jan 09, 2010 4:32 pm

Citação :
No artigo sobre o Romantismo já foi criticada a propriedade desta designação usada por Teófilo Braga num sentido restrito, que a relaciona com o medievismo romântico: «A representação exclusiva da Idade Média, à falta de objectividade, levou ao exagero da frase, a ênfase retórica, produzindo um estilo chamado Ultra-Romantismo» (Introdução e Teoria da História da Literatura Portuguesa, Porto, 1896, p. 359). Tornou-se habitual classificar de «ultra-românticos» os poetas surgidos na literatura portuguesa depois de 1838: Maria Browne, Alexandre Braga, José da Silva Mendes Leal, seu irmão António Joaquim Teodorico Mendes Leal (1831-1875), autor de Poesias (1859) e dramaturgo, Camilo Castelo Branco, Soares de Passos, João de Lemos, Luís Augusto Palmeirim, Gomes de Amorim, Bulhão Pato, Tomás Ribeiro, A. X. Rodrigues Cordeiro 8Esparsas, 1889), Joaquim Pinto Ribeiro (Lágrimas e Flores, 1854; Coroas Flutuantes, 1862), Francisco Palha, Augusto Luso da silva, J. S. da Silva Ferraz, Ernesto Pinto de Almeida, etc. O período ultra-romântico iria até 1865, data da «Questão Coimbrã». A designação emprega-se também a respeito do teatro, e só esporadicamente em referência à novelística. Mas, tendo a palavra Ultra-Romantismo um matiz claramente pejorativo, não parece justo aplicá-la por igual a toda a produção daqueles autores; e aspectos «ultra-românticos» (ingredientes terríficos, folhetinescos, convencionais, e oratória de melodrama, convencional também) encontram-se nas obras dos grandes românticos, Garrett e Herculano, como se nos deparam nos poemas de Castilho à maneira romântica (Noite do Castelo, Ciúmes do Bardo).
A poesia dos autores acima aludidos apresenta, mais ou menos acentuados ou mecanizados, os caracteres que a História Literária atribui ao Romantismo: pessimismo, insatisfação, melancolia, ânsia de absoluto, religiosidade cristã, pendor confessional, idealismo amoroso, elevada temperatura dos afectos, sentimentalismo burguês (temas como: o baile, onde nascem paixões «vulcânicas»; a mãe e o filho morto; o cemitério). A par disto, gosto de pretextos medievais; tendência folclórica e popularizante. Alguns cantam a Pátria e a Liberdade, denunciando aspirações sociais. Nota-se, por outro lado, que a poesia desempenha uma função mundana: há muitos versos para álbuns, versos para recitar em salões particulares ou teatros. O preconceito da espontaneidade torna esta poesia demasiado «fácil», de versificação frouxa e vocabulário muito repetido. Continua a respeitar-se a rigorosa distinção entre «poesia» e «prosa» no domínio lexical: o vocabulário da poesia é selecto, requintado(«almo», «cerúleo», «níveo», «favónio», «carme», etc.), em certos casos medievalizante (o poeta é «bardo» ou «trovador», escreve «solaus», etc.).
Os próprios românticos (Castilho, Garrett, Camilo) censuraram ou meteram a ridículo os excessos do Romantismo, a sua degradação pelo emprego de receitas ao gosto do público menos exigente. Castilho já em 1832, numa carta a J. V. Cardoso da Fonseca, usava pejorativameneto adjectivo ultra-romântico (tê-lo-á formado?) a respeito dum estilo declamatório que - supunha - não duraria muito tempo. Xavier de Novais parodia o teatral desespero dos vates byronianos da época:«Estou céptico! Descreio / De tudo... mesmo do amor: / Rasga-me um punhal o seio, / não posso com tanta dor...» No romance Helena, deixado incompleto por Garrett, também se critica um idealismo doentio, «escolar», e a respectiva pobreza de rimas: «eu escrevo uma história, não faço versos à Lua, debruçado nos balcões ideais duma criação caprichosa e imaginário estilo... devorado pelo verme roedor dos negros pensamentos, que baloiçam tristemente ao vento da solidão no crepúsculo da noite... et., etc., com três versos na mesma rima seguida, e um agudo depois em ão, coração, desesperação ou semelhantes...» (ed. 1899, t. XXII das Obras Completas, p. 56). E Camilo, em 1848, num artigo do Nacional, usa o adjectivo gongórico, no sentido de maneirista, a respeito da poesia do tempo: «Queria fazer-te uma poesia gongórica, como essas que por aí lês que não passam do rubim, cramesim, marfim - rosal, cristal, angelical...» (in Dispersos, I, p. 40).
Coelho, Jacinto do Prado, DICIONÁRIO DE LITERATURA, 3ª edição, 4º volume, Porto, Figueirinhas, 1979
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